Fragilidade de cuidados paliativos no Brasil preocupa especialistas

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Apenas uma em cada 10 pessoas tem acesso a este tipo de assistência no mundo, aponta Organização Mundial da Saúde (OMS)

O mundo ainda é deficitário na promoção ao acesso dos cuidados paliativos. Tratamento que busca dar suporte a pessoas com doenças incuráveis ameaçadoras da vida através do controle da dor e de qualquer sintoma que cause desconforto, os cuidados paliativos estão ao alcance de apenas uma em cada 10 pessoas, conforme constatou a Organização Mundial de Saúde (OMS), em mapeamento inédito apresentado no documento denominado “Atlas Global de Cuidados Paliativos no final da vida” (tradução do inglês “Global atlas of palliative care at the end of life”). O material tem parceria do Worldwide Palliative Care Alliance (WPCA). O relatório também revela haver 20 países somente que possuem sistema adequado. O Brasil, não faz parte desse grupo.

“A essência dos cuidados paliativos consiste em permitir que a pessoa e seus familiares possam viver plenamente o tempo que lhe resta. A intenção não é dar anos a vida, mas sim, vida aos anos. Valorizar o tempo que resta”, relata o presidente da Comissão de Cuidados Paliativos da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), o geriatra Daniel Azevedo, ao traduzir em palavras a essência desta modalidade terapêutica.

Pioneira, a iniciativa é avaliada por Azevedo como fundamental para estimular a implementação deste tipo de cuidado. “Estes indicadores revelam que pessoas com doenças incuráveis não tem seus sintomas adequadamente tratados. Além disso, são subestimadas as necessidades sociais, psicológicas e espirituais dessas pessoas e de seus familiares. Trata-se de uma questão de saúde pública e o mundo passa longe de atingir a meta de uma cobertura mais ampla”, completa o médico.

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Também fica patente no documento da OMS que uma parcela considerável da população não recebe cuidados paliativos porque os profissionais de saúde ainda não reconhecem claramente que certas doenças são indicações desse tipo de assistência. “Se o cuidado paliativo no câncer já se consagrou, continua largamente ignorado em doenças como demência, insuficiência cardíaca ou doença pulmonar obstrutiva crônica”, defende Azevedo.

Para tentar mudar esse panorama, o geriatra defende ser urgente incluir a disciplina de cuidados paliativos” no currículo de todas as profissões da área da saúde, com o intuito de preparar os profissionais desde a graduação para lidar com a finitude, incutindo a certeza de que existe sempre muito a se fazer, mesmo que o paciente seja portador de uma doença incurável. “Com a formação de profissionais capacitados e a criação de centros para a prestação de cuidados paliativos, a assistência tende a ser mais abrangente e permitir que as pessoas sejam acompanhadas desde o momento do diagnóstico de doenças sem cura”, explica Azevedo.

Além disso, o médico ressalta que esta discussão precisa ser escancarada para a sociedade, para que as pessoas reconheçam e enfrentem o tabu da morte.

Entraves

De acordo com o presidente da Comissão de Cuidados Paliativos da SBGG, no Brasil, existem fatores que infelizmente limitam a ampliação da oferta de cuidados paliativos. “A população, de modo geral, desconhece o objetivo desse tipo de cuidado, reconhecendo-o como um sinônimo de ‘cuidados ao fim da vida’ quando na verdade esta modalidade terapêutica é bem mais abrangente e por vezes iniciada alguns anos antes da morte da pessoa. Ou até décadas, como no caso de uma demência de progressão lenta”.

Ainda há, segundo Azevedo, uma percepção infeliz de que os cuidados paliativos envolvam eutanásia, o que está completamente equivocado. Além disso, existe pouca divulgação das diretivas avançadas de vontade e resistência a registrá-las porque talvez as pessoas tenham medo de serem abandonadas pelos médicos ou de não receberem o melhor tratamento possível se deixarem registrado o seu testamento vital.

Opinião do especialista: “Em minha opinião, por fim, é vergonhosa a situação de controle de venda de medicamentos opióides para dor de forte intensidade, como morfina e metadona, no Brasil. A prescrição desses remédios indispensáveis em cuidados paliativos passa por excesso de burocracia. Acaba sendo tão dificultada pelas autoridades reguladoras que aumenta o preconceito da população contra esses medicamentos e diminui o número de médicos que conseguem percorrer todos os intermináveis passos para prescrevê-los. Essa regulamentação precisa ser revista com prioridade porque, em função da dificuldade de acesso aos medicamentos, um número considerável de pessoas estão morrendo com dor ou falta de ar, o que é inadmissível. No ano de 2014, com tudo o que se sabe sobre controle da dor, ninguém deveria morrer dessa maneira”, pondera Azevedo.

Fonte: Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)

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